ARTIGO
O Risco Moral e Juventude na Pandemia

“A psicologia tem uma papel crucial na compreensão do impacto social e económico que o período de Pandemia que atualmente vivemos tem entre nós. Neste artigo, o Prof. Leonel Garcia-Marques fala-nos da importância do risco e da responsabilidade moral da nossa geração na sua relação com gerações futuras em tempos de Covid 19. Um contributo crítico que merece a nossa reflexão.”

AUTOR DO ARTIGO
Leonel Garcia-Marques
Professor Catedrático na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. A sua investigação foca-se nos temas da memória, formação de impressões, estereótipos, julgamento e tomada de decisão. Foi Editor principal do European Journal of Social Psychology. Publicou mais de 100 artigos cientificos, incluindo nos mais prestigiosos jornais de Psicologia Social e Cognitiva. Recebeu, ao longo da sua carreira, vários prémios científicos e é também conhecido pelas suas colaborações com Departamentos de Investigação em Psicologia de topo ao nível mundial, incluindo UCSB, Harvard, NYU, entre vários outros.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), a nível mundial, a letalidade do COVID-19 (a percentagem de infetados que acabam por falecer) encontra-se para as idades nos intervalos entre os 10-19 e os 20-29 anos nos 0,2%. Entre os 60-69, a mesma percentagem é de 3,6% (18X maior) e partir daí aumenta bastante até os 14.8% (para os infetados com mais de 80 anos). Em Portugal os dados são semelhantes.

Nos EUA, de acordo o National Center for Immunization and Respiratory Diseases (NCIRD) as percentagens de hospitalizações vão no mesmo sentido, mas são menos contrastantes. Assim, a percentagem de infetados que são hospitalizados é 5X mais baixa para os infetados com idades entre os 18 e 19, do que a mesma percentagem dos infetados com idades entre os 65 e 74 anos (a mortalidade de acordo com a mesma fonte, é 90X mais baixa). São estes os fatos.

O contágio abrange todas as idades, mas a continuação ou recrudescimento da pandemia têm consequências muito diferentes em jovens e menos jovens. Conter a pandemia é um dever de todos, mas…

Em Economia, existe um conceito que parece apropriado para este caso – o de Risco Moral. O Risco Moral ocorre quando uma entidade tem um incentivo para aumentar a sua exposição ao risco porque não acarreta com a totalidade dos custos correspondentes a esse risco. Os jovens enfrentam um risco moral na pandemia porque os custos da pandemia são na sua maior parte suportados pelos mais velhos.

Classicamente, os efeitos perversos dos riscos morais foram explicados em termos de deficits de caráter dos agentes (i)morais. Por exemplo, o conceito tem sido invocado na suposta propensão dos trabalhadores para terem menos cuidados com a própria segurança ou para comunicarem mais acidentes em resposta ao aumento da proteção social e dos seguros de trabalho. Isto porque, a maior proteção social oferecida aos trabalhadores levaria a uma diminuição dos custos dos riscos de trabalho para os próprios, e estes tenderiam a negligenciar a segurança, exagerar pequenas ocorrências ou até a simular acidentes de trabalho ou doenças (se as baixas médicas estiverem cobertas pelo seguro, pelo patrão ou pelo Estado). Claro que isto só poderia acontecer devido às fraquezas de caráter dos trabalhadores. Tal como John Haynes afirmou em 1895, o risco moral seria um tipo de risco de seguro relacionado com a desonestidade e a deficiência de caráter moral do tomador do seguro.

Outro exemplo seria o da crise das dívidas soberanas no início do presente século, em que os países do Norte da Europa, invocavam a possibilidade de risco moral futuro para negar a solidariedade aos países do Sul. O argumento era o de que os países europeus do Sul, no futuro, passariam a tomar decisões baseadas no risco moral, por passarem a ter como garantido que seriam salvos pelos países do Norte em caso de futura necessidade. E porque seria perigoso deixar os países do Sul em situação de usufruir de um risco moral? De acordo com o ministro holandês da economia dessa altura, o perigo adviria da conhecida tendência dos portugueses (e supostamente dos outros países do Sul para se endividarem em gastos com prostitutas e álcool).

Diria que, como defendeu Thomas Baker em 1996, o conceito de risco moral foi invocado como forma de reduzir os benefícios públicos e privados disponíveis para os fracos, os doentes, e os pobres; funcionando assim, a chamada economia do risco moral, como instrumento de legitimação desse abandono, sendo apresentado como o resultado da busca da verdade e não como mero exercício do poder dos fortes.

Mas voltemos aos nossos jovens e à pandemia. O risco moral dos jovens parece também desencadear efeitos perversos. Pelo menos de acordo com os media, os jovens passam a vida em “festas ilegais” e como tal, parecem valorizar mais a diversão do que a saúde dos pais e avós. Defeitos de caráter… Assim são os jovens desde o princípio do mundo.

Contudo, no último século, a noção de risco moral tem vindo a adquirir uma conotação menos maculada e mais “racional”, em termos de meros incentivos para o risco. Incentivos que um agente racional deveria até levar em consideração. Por exemplo, no caso do problema do principal-agente, um agente toma decisões em função dos interesses de outrem (o principal). É o que sucede com os chamados gestores de fortunas ou os CEOs, que recebem principescamente para se dedicarem à valorização dos dividendos dos seus “principais” (os que os contratam). Ou nos fenómenos decorrentes dos bancos “too big to fail” que se expõem a um risco cada vez maior por saberem que, em caso de aflição, serão resgatados pelo Estado, e vão assim aumentando os seus lucros. Outro caso semelhante é o do Novo Banco e do Fundo de Resolução. Tudo planeado por ótimos e competentes gestores.

Mas vejamos, tomando as consequências perversas do risco moral, não como decorrentes de um defeito de caráter, mas o efeito de um incentivo ao risco (que pode ou não ser compensado com outros incentivos como no caso dos CEOs) ou, neste caso, como um menor incentivo ao evitamento do risco (por comparação com os menos jovens), o comportamento dos jovens terá outra explicação.

Afinal a menor exposição ao risco e o decorrente menor contato e menor estabelecimento de relações interpares podem ter custos elevadíssimos para os jovens. Estes custos advêem das dificuldades acrescidas e atrasos na realização das importantes tarefas de desenvolvimento pessoal e de adaptação às novas exigências da vida académica e/ou profissional que fazem parte do percurso que leva à idade adulta. Como tal, as condições atuais colocam os jovens numa situação em que o desconfinamento mais rápido (mesmo com a maior exposição ao risco pandémico) é muito mais recompensador (com mais benefícios e menos custos) do para os menos jovens.

Devemos, mais do que tudo, sentirmo-nos gratos pela disponibilidade manifestada pela grande maioria dos jovens para nos proteger, colocando a sua disponibilidade em destaque, em paralelo com a dos outros heróis da pandemia, os profissionais de saúde e todos os outros trabalhadores que impedem que a sociedade entre em colapso.

Dispensam-se, pelo contrário, as tentativas de esconder a situação de risco moral em que os jovens se encontram, tendendo a meter-lhes medo com os riscos supostamente generalizados da pandemia, em vez de os informar de forma objetiva acerca dos dados disponíveis sobre a letalidade e severidade em função da idade.

Aliás, se o desconfinamento mais lento acarreta riscos especiais para os jovens (e para a sociedade futura) no que concerne a ultrapassagem bem-sucedida das tarefas de desenvolvimento, nós os menos jovens, estamos também numa situação de risco moral por, aparentemente, estarmos dispostos a expor os jovens (e futura sociedade de que farão parte) a esses riscos, sem a mínima hesitação. Será porque só arcamos com parte dos custos correspondentes? Será por defeito de caráter? Ou será porque condenações morais apressadas tendem a obscurecer a diversidade de perspetivas e a possibilidade da nossa perspetiva poder estar errada? Quando sentirem vontade de condenar, contemplem a possibilidade de poderem estar errados.

Artigo publicado a 05 de setembro de 2020 no blog https://essentiallypsychology.com/

AUTORA DO BLOG ESSENTIALLY PSYCHOLOGY
Tânia Ramos
UX researcher na OutSystems,
Investigadora do Centro de Investigação em Ciência Psicológica da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa